Revista Banquete: pequenos apontamentos

minhasA Banquete é uma revista de culinária publicada nos anos 60 pelo Instituto de Culinária CIDLA e mensalmente distribuida em Portugal e nas ex colónias portuguesas. Cada numero editado permite-nos aferir uma certa tomada da culinária portuguesa como mote para outras abordagens intimamente ligadas aos factores regimentais de outrora.

Noções de pertença e nação, o papel da mulher no lar ou outras lições de bem estar em sociedade eram publicadas gradualmente sob o mote da cada assunto que dava corpo a cada número mensal, devidamente enquadrado pela directora da publicação.

Não obstante o interesse pelos vários números desta publicação que venho colecionando e documentando, interessei-me especialmente pela edição nº73 datada de 1966. Trata-se de um número inteiramente dedicado ao Brasil e no qual encontrei algumas particularidades que constituem o foco do meu interesse.

Primeiramente, uma leitura atenta do texto introdutório levanta um certa ideia de cultura portuguesa no mundo protagonizada pelo regime de Salazar, de um Brasil constituido como espelho de Portugal, no prolongamento de uma história à qual se anexa o exotismo e um olhar sobre a culinária Brasileira indexado aos gostos de uma elite citadina a olhar uma país de dimensão continental.

A opção editorial deste numero da revista articula um discurso sobre a culinária brasileira influenciado pelas relações diplomáticas com o Brasil, na pessoa das esposas de figuras públicas cariocas com as quais a editora tinha relações de proximidade. Tal facto desenha não só um roteiro de afectos nas escolhas de cada receita, como também um mapa de espaços sociais, que caso a caso se identificam com restaurantes à mercê das diplomacias e da socialite de então. Permite-nos traçar um roteiro que enuncia uma vida carioca conceptualmente alicerçada nos restaurantes de ponta e nas deliciosas e sofisticadas receitas agregadas a cada um deles.

A leitura de cada receita é uma constatação de que a culinária é um veículo cultural intimamente ligado aos actos sociais e às construções e uso que fazemos dela, não sendo a sua interpretação inocente e, neste caso, não menos condicionada pela articulação de receitas locais num cardápio de sabores que reivindica a reinvenção sem se desprender das aplicações literais, conceptualmente influenciadas pelos métodos de cozinha e apresentação europeus.

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Outra linha condutora que interessa salientar é um fascínio pela imagem exótica da culinária vinda do nordeste. Permite-nos ler um menu construído pelos sabores da culinária Afro-Brasileira da Bahia ou, por outro lado o fascínio pela comida do sertão, que enuncia uma cultura nordestina, ideia não menos marcada pela distância geográfica do nordeste do eixo urbano do Rio e São Paulo.

Olho esta revista não só apenas pelos seus conteúdos mas também pela geografia onde incide. Permite-me desfolhar um mapa de afectos que fui construindo ao longo de diversas viagens que fiz ao Brasil e onde a experiência gastronómica esteve sempre presente.

Dai, interessa-me também pensar que a experiência de viagem é uma das questões que não se pode dissociar do mundo artístico na actualidade. O artista é um observador do mundo e a criação artística em rede, a internacionalização da arte e dos bens imateriais, implica uma tomada de consciência do mesmo face ao mundo globalizado em que se encontra. Numa sociedade mediatizada como a actual, pensar em visões locais na arte, implica uma análise do globalismo que existe em cada um de nós. Mesmo aquele que não viaja, constrói dentro de si imagens e ideias entrepostas pelos mídia e por quem nos conta a experiência do lugar. Para quem não se desloca, a definição de um determinado sítio, sempre foi, e ainda hoje o é, uma ideia trabalhada e mediada por terceiros.

Nos anos 60, o controle dos media por parte do regime, implicava um forte controle político sobre a construção da identidade portuguesa e formatava a imagem de Portugal no mundo e do mundo em Portugal. A revista banquete não será uma excepção. As identificações dos locais e das suas receitas e culturas gastronómicas, surgem na maioria dos números ligadas a uma ideia de Portugal que define quase sempre uma posição política face ao assunto que cada número encerra.

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